Gregório Sansão não tinha muita inteligência, mas também não teve a chance de exercitá-la: desde a mais tenra idade, dedicou-se exclusivamente às atividades que lhe poderiam render a fama, de qualquer maneira. Tentou ser dançarino em programas de TV, mas não obteve sucesso porque era desengonçado; montou uma dupla caipira, à moda country norte-americana, mas os ouvintes o achavam regional demais; meteu-se no universo das artes marciais, mas era técnico demais para as lutas que exigiam força e era bruto demais para as que requeriam apuro e precisão.
Numa bebedeira desenfreada, desencantado da vida, Gregório descobriu que as verdadeiras oportunidades estavam na Inglaterra. Com as economias que lhe restavam, tomou um avião e desembarcou em Londres, acreditando que poderia viver de música brasileira, tocando violão e cantando nas estações de metrô.
Acontece que as expectativas de Gregório, mais uma vez, foram frustradas. Enquanto tocou as canções do exílio de Caetano que, acreditava, sensibilizariam o público inglês, Gregório foi ignorado; tentou as canções da Bossa, que lhe renderam alguma atenção, mas descobriu logo que o público preferia bossa com toques eletrônicos, o que seria impossível fazer só com o violão; tentou sertanejas, axés, marchinhas, sambas-canção, canções de protesto, gritou "Caminhando e Cantando", engrossou a voz à Sepultura e o máximo que ouviu de um conterrâneo que passava por ali foi que "Isso é lixo".
Cansado, Gregório dormiu na rua, ao lado de um latão de lixo, que o protegeu do vento. Quando acordou, viu-se envolto por jornais, restos de comida, projetos artísticos vetados, baterias de telefones celulares, frustrações, pontas de cigarro, fraldas sujas de crianças inglesas limpas, poemas começados e não terminados, cascas de frutas, melecas de nariz, latas de coca-cola, lenços com escarro, telas inacabas de artistas obscuros, material velho de escritório. E antes que pudesse enojar-se, Gregório mergulhou nessa sopa primordial, misturou-se a ela, compondo de cabeça melodia e letra de uma canção inédita que talvez não tivesse apelo nenhum de mercado, mas que lhe falava à alma, agora toda lixo.
Conforme o tempo passava, aquela montanha de objetos rejeitados tomava forma especial, forma de tudo e nada, em que Gregório se integrava e sintetizava, como se nascesse daquela matéria algo que fosse ela mesma, mas já subvertido e subversor, um mesmo em outro. A canção imaginada por Gregório agora tinha nuances, arranjos, uma riqueza que ele jamais imaginou que poderia conceber.
E quando percebeu que concluíra a canção, uma luz tremenda ocupou o monturo em que estava metido, fazendo reagir de imediato as bactérias isoladas no container que chegava ao Porto de Santos. Transformado numa barata gigantesca, nunca divulgada pelos jornais brasileiros, Gregório Sansão espantou os fiscais e os policiais federais, e mergulhou no esgoto, em fuga.
Risco de poema
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*para Mário Henrique Bernardes*
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Em meio à ponte aérea -
entre os alheados da Vila Madalena
e os inocentes do Leblon
(onde a areia é quente e há um prote...
12 horas atrás


