terça-feira, 28 de julho de 2009

A incrível jornada de Gregório Sansão

Gregório Sansão não tinha muita inteligência, mas também não teve a chance de exercitá-la: desde a mais tenra idade, dedicou-se exclusivamente às atividades que lhe poderiam render a fama, de qualquer maneira. Tentou ser dançarino em programas de TV, mas não obteve sucesso porque era desengonçado; montou uma dupla caipira, à moda country norte-americana, mas os ouvintes o achavam regional demais; meteu-se no universo das artes marciais, mas era técnico demais para as lutas que exigiam força e era bruto demais para as que requeriam apuro e precisão.

Numa bebedeira desenfreada, desencantado da vida, Gregório descobriu que as verdadeiras oportunidades estavam na Inglaterra. Com as economias que lhe restavam, tomou um avião e desembarcou em Londres, acreditando que poderia viver de música brasileira, tocando violão e cantando nas estações de metrô.

Acontece que as expectativas de Gregório, mais uma vez, foram frustradas. Enquanto tocou as canções do exílio de Caetano que, acreditava, sensibilizariam o público inglês, Gregório foi ignorado; tentou as canções da Bossa, que lhe renderam alguma atenção, mas descobriu logo que o público preferia bossa com toques eletrônicos, o que seria impossível fazer só com o violão; tentou sertanejas, axés, marchinhas, sambas-canção, canções de protesto, gritou "Caminhando e Cantando", engrossou a voz à Sepultura e o máximo que ouviu de um conterrâneo que passava por ali foi que "Isso é lixo".

Cansado, Gregório dormiu na rua, ao lado de um latão de lixo, que o protegeu do vento. Quando acordou, viu-se envolto por jornais, restos de comida, projetos artísticos vetados, baterias de telefones celulares, frustrações, pontas de cigarro, fraldas sujas de crianças inglesas limpas, poemas começados e não terminados, cascas de frutas, melecas de nariz, latas de coca-cola, lenços com escarro, telas inacabas de artistas obscuros, material velho de escritório. E antes que pudesse enojar-se, Gregório mergulhou nessa sopa primordial, misturou-se a ela, compondo de cabeça melodia e letra de uma canção inédita que talvez não tivesse apelo nenhum de mercado, mas que lhe falava à alma, agora toda lixo.

Conforme o tempo passava, aquela montanha de objetos rejeitados tomava forma especial, forma de tudo e nada, em que Gregório se integrava e sintetizava, como se nascesse daquela matéria algo que fosse ela mesma, mas já subvertido e subversor, um mesmo em outro. A canção imaginada por Gregório agora tinha nuances, arranjos, uma riqueza que ele jamais imaginou que poderia conceber.

E quando percebeu que concluíra a canção, uma luz tremenda ocupou o monturo em que estava metido, fazendo reagir de imediato as bactérias isoladas no container que chegava ao Porto de Santos. Transformado numa barata gigantesca, nunca divulgada pelos jornais brasileiros, Gregório Sansão espantou os fiscais e os policiais federais, e mergulhou no esgoto, em fuga.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Compostagem em Pequenos Espaços


Compostagem em Pequenos Espaços

SESC Itaquera
Dia(s) 25/07
Sábado, às 11h.
Aborda os princípios da compostagem com ênfase à agricultura orgânica, sistema de produção que mantém as propriedades dos recursos naturais sem utilizar produtos químicos sintéticos e que contribui para a sustentabilidade.

Compostagem em Pequenos Espaços?
Isso é nome de exposição de artes plásticas!

sexta-feira, 17 de julho de 2009

O lixo está chegando!


Aproximadamente mil toneladas de lixo aportaram recentemente em terras brasileiras vindo da Inglaterra. Transpondo fiscalizações e documentações, as encomendas conseguiram chegar ao Brasil; centenas de contêineres repletos de detritos como banheiros químicos prensados, camisinhas usadas, seringas, pilhas, cartelas de remédios usadas e até material orgânico, sem contar aranhas e baratas, permanecem nos portos de Rio Grande e Santos.

Mais em

http://www.dcomercio.com.br/Materia.aspx?id=20802

http://tvig.ig.com.br/134548/toneladas-de-lixo-ingles-continuam-no-rs.htm

A empresa Alfatec é citada em matéria do Ig como compradora de parte dos lixos. A empresa é manauara, enquanto que na reportagem da DComercio cita a presença de quatro empresas gaúchas e uma de São Paulo no esquema, sem mencionar nomes. Encontrei aqui também uma Alfatec em São Paulo, mas não parece ter interesse no assunto (a menos que seja uma empresa de fachada ou algo assim).

Tsk... servicinho feito pela metade, compra o lixo e não leva embora... se hoje o Aterro contasse com profissionais da área química, agentes inflitrados nas alfândegas e galpões gigantescos, faríamos essa transação com os mafiosos britânicos com muito mais discrição e elegância. Lixo é dinheiro!

Do Lixo viemos, ao lixo voltaremos

Texto inspirado na inspiração infinita dos poetas Pedro Pracchia e Fábio Cardelli (este texto, de certa forma, é mais deles do que meu), e na sensibilidade da fotógrafa Ezyê Moleda. A foto é dela, em: http://agoramomentoinstantepresente.blogspot.com/2009/05/alguns-olhares-de-um-final-de-semana.html

Minha pilha de papéis de pão. Antigos telefones vermelhos de orelhão. Meios-brinquedos, agora assombrados dos adultos que os abandonaram. Restos velhos de anotações fragmentárias de aulas que se perderam no tempo, mortos já os professores, perdidos os alunos nos escritórios da cidade. O cheiro do ralo: no lixo pode-se achar de tudo. A última página deste caderno, que encontrei quase inteiramente em branco. Rol de porcarias que encontrei fuçando nas lixeiras da cidade.

Começou assim: chutei sem querer um lixo na Rua Barra Funda, voou um caderno de anotações novinho: Vou usar este caderno que encontrei, ele serve direitinho para escrever os poemas que eu tenho lá em casa. E passei a procurar, em outras lixeiras do bairro, outros objetos, para que eu pudesse me prevenir das intempéries da vida, eu poeta sem utilidade prática na realidade concreta.

Não me foi fácil. Diziam: é poeta, vá lá, é charmoso ter poeta aqui no bairro, a gente comenta no jantar com os amigos e todos dizem, Oh, eles moram em bairro de poetas; mas agora recolhe lixo das ruas? é poeta ou é lixeiro? é escritor ou é mendigo? E as mães de família, e os pais de família, e a diretora da escola, e o padre da igreja, todas essas pessoas respeitáveis da região batiam à minha porta e perguntavam se eu estava bem, se precisava de alguma coisa, e tentavam olhar para dentro de minha casa e viam o lixo que já se acumulava em minha sala. E eu sorria do desespero deles, porque o meu lixo era pouco, se comparado ao deles. E eu conhecia bem cada um, graças aos vestígios de vida que deixavam em seus lixos: já recolhera as fotos secretas do amante da mãe de família; já encontrara as langerris sujas que o pai de família usava às sextas à noite; lera excitado e me masturbara com as cartas picantes que a diretora da escola trocava com o aluno da oitava série; rira à larga com as cartas que o padre trocava com o mesmo aluno, este o único íntegro de todos, porque só fazia 0 que bem entendia, sem importar-se com o que pensariam os outros. O lixo que ele me legava, aliás, era diferente: o garoto participava de movimentos para a reciclagem.

O cheiro de minha casa era forte, mas não era insuportável: eu havia descoberto um processo alquímico que não conto, é meu segredo. Meus vizinhos também são alquimistas, mas não sabem. Explico de um jeito que só eu entendo: eles compram o objeto, usam, e como que por encanto, num gesto, dão-lhe o nome, quando a utilidade acaba: é lixo. E eu pego esse mesmo objeto, levo para minha casa e o transformo, num passe mágico de palavra, em outra coisa. Eu trato o lixo, faço-lhe carinhos, afago-o, eu ouço o lixo com atenção, observo-o atenciosamente e ele ganha vida.

À noite, em minha casa, a festa é animada e macabra: a cabeça arrancada de um brinquedo de piloto de corrida assume a forma de Virgulino Ferreira, e Lampião declama poemas de Literatura de Cordel, para frangalhos de Barbies, até o amanhecer; o telefone antigo, de olhos arregalados, enuncia conversas, há muito perdidas, jamais escutadas, entre escritores modernistas. E eu anoto tudo na última página deste caderno, que encontrei quase inteiramente em branco, a vida que têm as porcarias que encontrei fuçando nas lixeiras da cidade.